Em um breve, mas magistral estudo publicado em 1874, Ofertas ao Senhor: Aspectos do Velho e Novo Testamentos comparados, David Cole declara: “A lei especial dos dízimos desapareceu com o resto da economia judaica. Ela tem sido um ‘líder infantil’ para tomar a igreja pela mão e conduzi-la até uma doutrina e prática do evangelho na questão das ‘ofertas ao Senhor’.”
Os cristãos não devem dar por conta da lei dos dízimos no Antigo Testamento. No Novo Testamento, os justos não dão pela obrigação que vem da lei, isto é, por uma obrigação externa, mas livre e amorosamente, por uma compulsão interna de um coração regenerado pelo Espírito Santo, para ajudar a atender às necessidades da obra do Senhor e dos pobres. Paulo não falou nada sobre dízimos porque ele sabia que “havia um novo templo, um novo sacerdócio e um novo modo de dar – por conta do amor de Cristo em seu coração!” (Gary Amirault).
No Antigo Testamento, os dízimos sustentavam os sacerdotes e levitas. No Novo Testamento, todos os crentes são sacerdotes: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9). Assim, para o cristão que vive consciente de seu papel de sacerdote missionário no mundo, o dinheiro gasto em sua subsistência é santo ao Senhor. Uma parte dele, porém, é oferecida para o sustento da obra do Senhor e para ajudar os necessitados, do mesmo modo que os sacerdotes da velha ordem davam ao sumo sacerdote o dízimo do dízimo que recebiam. Assim sendo, o dinheiro que o crente gasta consigo e sua família, sacerdotes missionários que são, é tão consagrado ao Senhor quanto a porção do dinheiro dedicada à obra do Senhor e aos pobres. Por isso, o dinheiro do crente deve ser usado com coisas dignas do Reino, assim como tudo que o crente faz deve ser digno do Reino.
Hernandes Dias Lopes tratou dos dízimos em Dízimos e Ofertas São para Hoje?, defendendo o entendimento tradicional de que os dízimos sobreviveram à lei que cessou, por considerá-lo uma lei moral. Ele escreveu: “Resta, claro, afirmar que o dízimo foi sancionado por Jesus no Novo Testamento (Lc 11:42).” Lucas registrou estas palavras de Jesus: “Mas ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, e a arruda, e toda hortaliça e desprezais o Juízo e o amor de Deus! Importava fazer essas coisas e não deixar as outras.” Jesus estava criticando a hipocrisia dos fariseus, ensinando o que eles deviam ter feito e não fizeram. Norval Geldenhuys comenta: “Visto que a obra de redenção de Jesus não estava ainda completada naquele tempo e as demandas rígidas do Antigo Pacto estavam ainda em vigor, eles estavam certos em ser fiéis em dar os dízimos […] mas eles não deviam deixar a sua religião se tornar uma matéria de conduta rigidamente ortodoxa através da negligência da piedade interna.” Geldenhuys diz ainda com propriedade: “Essas palavras não devem ser interpretadas como se estabelecessem uma obrigação legal também para os crentes cristãos. Quando Jesus proferiu essas palavras, a Nova Aliança ainda não havia sido instaurada por Sua morte sacrificial. Com o advento da Nova Aliança, as antigas formas rígidas e cerimoniais da religião também desaparecem.”
John Smyth, reconhecido como o primeiro batista, escreveu que os dízimos faziam parte do Antigo Testamento, daquele jugo de escravidão do qual Cristo nos libertou.
A ideia de que, no verso de Lucas, Jesus “sancionou” os dízimos para a dispensação cristã ignora que, como obrigação da lei cúltica, os dízimos cessaram com toda a lei. Lopes sustenta que os dízimos continuam válidos porque não pertenciam à lei cerimonial do Antigo Testamento, que foi abolida. Diz ele: “A colocação do dízimo na categoria de lei cerimonial é um erro hermenêutico.” Mas é um equívoco histórico-teológico deslocar os dízimos da lei cerimonial, pois se tratava de um expediente de manutenção do sacerdócio cúltico. Pietro Martire Vermigli escreveu: “Primeiro, nós devemos entender que os dízimos, no tempo antigo, pertenciam às cerimônias e isso tanto em Melquisedeque, quanto nos Levitas […] mas agora que Cristo veio, o pagamento de dízimos não é mais uma cerimônia, como era antes da vinda de Cristo […] nossos homens nestes dias Recebem dízimos: mas por qual lei? Verdadeiramente não pela lei cerimonial, mas por uma lei moral, visto que é um requisito que o ministro deve ser sustentado pelo povo.” E John Bunyan, autor de O Peregrino (O Progresso do Peregrino, na verdade), disse que o pagamento de dízimos era cerimonial, tal como entrou e saiu com o típico sacerdócio.
Thomas Ellwood afirmou: “Os dízimos que eram dados pelo povo aos levitas e pelos levitas aos sacerdotes sob a lei, tinham sua dependência da lei cerimonial, assim como o sacerdócio tinha; e não deveriam durar mais do que aquela lei e aquele sacerdócio duraram.” É como diz Hebreus 7:12: “Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” – lei “pela qual aquele sacerdócio e a manutenção dele tinham durado” (Ellwood). Ellwood declarou contundentemente que os apóstolos não se meteram ou se preocuparam absolutamente com dízimos, mas deixaram-nos cair totalmente. De acordo com o mesmo autor, por volta do final do século IV e início do século V, a igreja começou a ser modelada segundo o padrão cerimonial judaico, que tinha sido abolido pela morte de Cristo, de modo que os dízimos voltaram a ser pregados e foram reintroduzidos, como eram devidos pelas leis levíticas que haviam sido dadas aos israelitas da antiguidade. Ellwood insiste que os dízimos faziam parte da lei cerimonial de Moisés e que, portanto, deveriam ser retirados e cessar com a morte de Cristo.
Thomas Bennet alegou em uma carta que os dízimos eram uma obrigação das tribos de Israel para com a tribo de Levi, de modo que essa obrigação não se aplica aos gentios – “Nem os gentios estavam, por esse mandamento, obrigados a isso.” Gary Amirault escreveu: “É também importante notar que o inteiro sistema da lei mosaica era somente para Israel. Este sistema não requeria que os romanos, os gregos, os babilônios, os indígenas americanos dizimassem.” Croteau fala por Stedman: “Visto que o dízimo era parte da lei mosaica e a lei mosaica nunca foi dada aos gentios, e a lei mosaica foi abolida para os cristãos, então Malaquias 3, e o sistema do dízimo, não se aplicam aos cristãos”.
E John Ross nos lembra que “os recursos das igrejas apostólicas não eram dízimos estipulados, mas as ofertas de amor de crentes gentios […].”
Lopes insiste: “Se o dízimo fosse cerimonial, ele teria cessado e Jesus teria deixado isso claro quando tratou do assunto.” Jesus tratou do assunto do “dízimo cristão”? Não, absolutamente, como não tratou do assunto do “sábado cristão” e do “templo (construção) cristão”. Se os dízimos não fizessem parte da lei cerimonial, Levítico 27:30 não deveria dizer o que diz: “Todos os dízimos da terra, seja dos cereais, seja das frutas, pertencem ao Senhor; são consagrados ao Senhor.” John Milton declarou: “Que os dízimos eram cerimoniais é evidente. […] os próprios judeus nunca consideraram os dízimos como algo moral, mas apenas cerimonial.”
Lopes sustenta que uma revogação explícita era necessária no Novo Testamento para que o dízimo cessasse. Há alguma dúvida de que a lei cerimonial ou cúltica foi revogada no Novo Testamento?
Mas o argumento deve ser invertido. Uma revogação explícita dos dízimos não seria feita por se tratar de um elemento cerimonial que, por naturalidade, cessou com a morte de Cristo. O que seria necessário, ao invés, seria uma afirmação explícita da validade da prática dos dízimos sob o evangelho da liberdade. Milton disse sobre isso: “Certamente, se Cristo ou seus apóstolos tivessem aprovado os dízimos, eles os teriam recomendado à Igreja, seja por escrito ou pela tradição:” Mas Croteau observa bem: “Enquanto Paulo nunca discutiu o dízimo diretamente (ou indiretamente e Jesus o mencionou somente incidentalmente, ambos trataram do dar e mordomia.” Essa é a diferença fundamental.
Em Uma Introdução à Hermenêutica Bíblica, Walter C. Kaiser e Moisés Silva explicam que as próprias Escrituras “nos oferecem um modo de separar quais mandamentos têm relevância contínua para as nossas vidas e quais têm sido tornadas obsoletas por Deus ter declarado a sua utilidade ter acabado.” Segundo eles, em Mateus 23:23, Jesus usa o princípio do que é “mais importante da lei”, a saber, os aspectos morais da lei, para indicar o que é duradouro, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé, enquanto as coisas menos importantes, como os dízimos, estão destinados ao cessar.
David A. Croteau defendeu que a prática de dar o dízimo não deve se basear em Mateus 23:23, porque os receptores das palavras de Jesus eram escribas e fariseus e eles ainda estavam sob o antigo pacto. “Não apliquem a si mesmos o que foi dito a outro povo sob uma administração diferente” (Gary Amirault). Já Lopes vê um Mateus 23:23, Hebreus 7:8 e 2 Cor. 9:11–14 “uma ratificação clara do dízimo”. Nem clara, nem direta, nem indireta.
James D. Quiggle conclui que “não há dízimo prescrito pelos apóstolos para a era da igreja do Novo Testamento”. Ele discorre ainda:
Se Paulo pretendia ensinar o dízimo como meio de sustentar ministros do evangelho, então esta ocasião era a oportunidade de ouro. O dízimo ajudava a sustentar os obreiros e ministros em tempo integral da “igreja” do Antigo Testamento. O dízimo fazia parte do sustento daqueles que ministravam “as coisas santas”, que é o que os ministros do evangelho fazem. Se Paulo pretendia ensinar à igreja do Novo Testamento algum modelo ou padrão de oferta baseado no dízimo do Antigo Testamento, esta era a sua oportunidade. Mas ele não o faz; ele expõe cuidadosamente os princípios da oferta de tal forma que ele não pode ser mal interpretado como se estivesse ensinando o dízimo do Antigo Testamento aplicado à igreja do Novo Testamento. Permitam-me repetir os versículos 13–14 para que os tenhamos diante de nós: “Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar participam do altar? “Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.”
Croteau afirma que, das três passagens que mencionam o dízimo no Novo Testamento, “nenhuma pode ser usada apropriadamente para argumentar pela continuação de dizimar no período do novo pacto”.
Há quem alegue que, tendo Abraão dado o dízimo a Melquisedeque (Gên. 14:18ss.), antes da lei, o dízimo deve permanecer depois da lei cessar. Esse argumento é precário, porque não há informação de que Abraão foi mandado dar dízimos, nem há evidência de que ele o fez consistentemente. Além disso, os dízimos, uma vez pertencendo à lei cerimonial, com a lei cerimonial cessou. Croteau escreveu: “Se Abraão dava o dízimo consistentemente, que recebia os outros dízimos? […] Abraão não estava obedecendo alguma pré-revelação da lei mosaica.” E Gary Amirault notou que não há nada que indique que Abraão “deu um décimo de suas posses pessoais”; somente do espólio da guerra. Não faz sentido que o dízimo seja exigido com base na iniciativa de Abraão.
Um outro ponto fundamental é que Abraão foi circuncidado antes da lei, mas a circuncisão cessou com o fim da lei cerimonial. Não foi requerido que os gentios dizimassem, do mesmo modo que não foi requerido que eles fossem circuncidados.
Houve quem quisesse circuncidar os gentios:
Então, alguns que tinham descido da Judeia ensinavam assim os irmãos: Se vos não circuncidardes, conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos. Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo, Barnabé e alguns dentre eles subissem a Jerusalém aos apóstolos e aos anciãos sobre aquela questão. E eles, sendo acompanhados pela igreja, passaram pela Fenícia e por Samaria, contando a conversão dos gentios, e davam grande alegria a todos os irmãos. Quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pelos apóstolos e anciãos e lhes anunciaram quão grandes coisas Deus tinha feito com eles. Alguns, porém, da seita dos fariseus que tinham crido se levantaram, dizendo que era mister circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés. (Atos 15:1–5)
O parecer apostólico foi: “Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras e transtornaram a vossa alma (não lhes tendo nós dado mandamento)” (v. 24).
Há, hoje, muitos que defendem que os dízimos foram impostos também a nós, os gentios…
Humildemente concebemos que os dízimos e a circuncisão deveriam cessar e ter um fim com a vinda de nosso Salvador Cristo […] que Abraão pagou dízimos antes da Lei; e que, por meio disso, se demonstra que os dízimos não são cerimoniais, mas morais, e por força da lei perpétua, e devidos sob a graça; afirmamos que Abraão também foi circuncidado antes da Lei. Contudo, o apóstolo diz: “Se vocês circuncidarem Cristo, ele não lhes aproveitará nada”. E, sem dúvida, se alguém nos tempos dos apóstolos fosse tão fraco no conhecimento da graça a ponto de se inclinar ao pagamento de dízimos (dos quais não há menção em seus escritos), o mesmo apóstolo teria dito: “Se vocês continuarem a pagar dízimos, estarão debaixo da lei e não debaixo da graça. Vocês estão obrigados a cumprir toda a lei, e Cristo não lhes aproveitará nada”.[1]
Disse Martin Luther, em um sermão de 1525: “Nem estas coisas se aplicam aos gentios, como o dízimo […].”
“O dízimo”, Croteau fala por Chafer, “foi suplantado pelo sistema de dar do Novo Testamento, porque o dízimo não poderia ser adaptado aos ensinos da graça.”
Paulo escreveu em 2 Coríntios 9:7: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.” Para Lopes, os que usam esse verso “para regulamentar a contribuição cristã em substituição aos dízimos cometem um sério equívoco hermenêutico. Paulo não estava tratando de dízimo, mas de uma oferta especial, levantada para atender os pobres da Judeia […].” De fato, Paulo não está tratando de dízimos quando diz “Cada um contribua segundo propôs no seu coração”; ele está tratando das ofertas livres que substituíram os dízimos no Novo Testamento. Nada melhor do que encorajar a vontade na dispensação da graça, para promover a generosidade depois que a lei da obrigatoriedade passou.
Charles Haddon Spurgeon disse em um sermão:
Lembro-me de ter ouvido alguém dizer: “Eu gostaria de saber exatamente quanto devo dar.” Sim, meu caro amigo, sem dúvida você gostaria; mas você não está sujeito a um sistema semelhante ao que obrigava os judeus a pagarem dízimos aos sacerdotes. Se houvesse alguma regra desse tipo estabelecida no evangelho, ela destruiria a beleza da doação espontânea e tiraria todo o viço do fruto da sua generosidade.
A afirmação de Quiggle é também digna de nota: “O dízimo enfraquece e limita esse desafio ao fixar um valor a priori, implicando que nada além do dízimo é exigido. Consequentemente, o Novo Testamento não estabelece uma regra para a oferta, nem um valor exato a ser dado.”
Henry William Clarke sustentou em Uma História dos Dízimos que, nos tempos apostólicos, os ministros cristãos eram sustentados por contribuições voluntárias provenientes de um fundo comum, e esta prática prevaleceu por quatrocentos anos; que um pagamento obrigatório de dízimos seria contrário ao espírito do evangelho de Cristo e que ele mantinha firmemente a opinião de que as ofertas voluntárias são o único modo bíblico para a manutenção do ministério cristão. Do mesmo modo, Philip Schaff afirmou: “Até então [começo do século IV], o clero dependia inteiramente das contribuições voluntárias dos cristãos, e os cristãos eram, em sua maioria, pobres.” James D. Quiggle comentou:
Se o dízimo, ou algum modelo, princípio ou padrão de contribuição derivado do dízimo, fosse importante para a igreja pós-apostólica, então deveria haver documentação histórica em seus escritos. O dízimo raramente é mencionado nos escritos da igreja nos primeiros cem anos após a morte dos apóstolos. Durante o terceiro século (200–300 d.C.), a contribuição voluntária começou a ser comparada desfavoravelmente ao dízimo. No quarto século, o dízimo foi recomendado como um meio bíblico de sustentar a igreja.
É dever dos cristãos satisfazerem as necessidades dos pobres, dos ministros e da obra do Senhor. Eles devem dar livremente, responsavelmente e consistentemente. Não é da índole do Novo Testamento, em que vigoram a lei da liberdade e do amor, requerer dízimos. Ofertas livres por amor são, por assim dizer, os dízimos da era cristã.
1 A collective letter. To the Right Honourable the Lord Major of the City of London (Appendix), In: The Great Case of the Tithes Truly Stated, Clearly Open’d, and Fully Resolv’d, Anthony Pearson. London: J. Sowle, 1720. p. 79. Tradução nossa.