Extraído de O Poeta João Cabral de Melo Neto, Eu e a Bíblia
(Amazon)
Os meus três filhos cantavam no Coro Infantil do Rio de Janeiro, conduzido pela maestrina Elza Lakschevitz. Os ensaios, às segundas-feiras e quartas-feiras, entre 18h e 20h, aconteciam em um salão nos fundos de uma igreja católica no bairro da Glória, na cidade do Rio de Janeiro. Toda segunda-feira, assim que eu os deixava lá, me dirigia a uma banca de jornal e comprava o exemplar da revista semanal Veja.
No dia primeiro de junho de 1998, segunda-feira, ao ler a revista, deparei-me com o seguinte artigo, assinado por Carlos Graieb: “A vida severina de Cabral”. O texto de apresentação do artigo dizia: “Cego e deprimido, o maior poeta brasileiro vivo põe um ponto final em sua obra.” João Cabral de Melo Neto, embaixador aposentado e poeta, dissera que estava constantemente deprimido e que tinha “um medo danado da morte”.
Ele quase nunca saia de casa, temendo a violência e as calçadas esburacadas da cidade. A deficiência visual fê-lo parar de escrever e o privou de seu maior prazer, a leitura. Ele tinha apenas um pouco de visão periférica, de modo que via somente o vulto das pessoas. A deficiência visual lhe impôs o fim da carreira de poeta. Disse ele: “Eu estou sem enxergar, compreende? De forma que não escrevo mais. […] Não adianta eu ditar para alguém porque eu preciso ver a minha letra construindo o verso. Eu escrevo como quem constrói uma casa.”
Ao ler o artigo, fiquei muito triste – pelo ser humano e pelo poeta. Pensei imediatamente: “Eu preciso falar com ele.”
Quis a vontade divina que eu fosse pastor. Mas eu nunca fui um pastor que conduzisse uma igreja. Sempre me dediquei à investigação teológica, à evangelização e a ajudar quem eu pudesse, em sua angústia.
Dirigi-me a um telefone público e liguei para o número 102. Eu não acreditava, porém, que o número do telefone do aclamadíssimo poeta e diplomata brasileiro em diversos países, estaria à disposição de quem quisesse, em uma lista pública. Além disso, pensei que o telefone da residência de pessoas importantes como ele poderia estar registrado em nome de outra pessoa. Ainda assim, falei à atendente: “Boa noite. Eu gostaria de saber o telefone de João Cabral de Melo Neto.” Incrédulo, fui surpreendido com as palavras da moça: “O senhor pode anotar?” Ela estava pronta para dizer o número do telefone do poeta. Mas eu não estava pronto para ouvi-lo.
Assustado e sem caneta ou lápis, eu disse a ela que podia falar. Pedi que ela repetisse. Agradeci e desliguei, repetindo sem parar o número do telefone. Dirigi-me a uma banca de venda de pequenas variedades, peguei uma caneta e anotei o número do telefone no topo da página do artigo da revista. Paguei a caneta e me afastei, realmente assustado. “Eu consegui o número do telefone dele!”
Mas o incrédulo continuou: “É claro que alguém como João Cabral não vai atender o próprio telefone. Outra pessoa o fará. Uma secretária, talvez, ou uma secretária eletrônica.”Ainda assim, voltei ao telefone público, coloquei uma ficha e disquei o número do telefone dele. Atendeu-me a secretária eletrônica. Eu não esperava outra coisa. Tentei uma segunda vez. A mesma secretária eletrônica. Naquele momento, eu fiz uma oração, ali, em pé, na calçada mesmo: “Meu Deus! Se eu estou diante de uma missão que devo cumprir e que efetivamente cumprirei, desarme aquela secretária eletrônica!”
Voltei ao telefone público, fiz novamente a ligação e, para o meu assombro, atendeu-me uma mulher. Sim, em poucos minutos, a secretária eletrônica deu lugar a uma pessoa. Quem quiser, chame isso de coincidência. Eu creio que a mão de Deus estava abrindo o caminho para que a minha missão fosse cumprida. Em vez de mera coincidência, providência divina.
Era a poeta Marly de Oliveira, mulher de João Cabral, com quem ele se casou após a morte da primeira mulher, Stella. Eu contei a ela tudo que acontecera – a leitura do artigo na revista, a minha tristeza, a vontade de ajudar como pastor, os episódios no telefone público. Eu disse a ela: “Apesar de tudo que eu li, os sentimentos do Sr. João Cabral não precisam ser necessariamente esses. Há outras possibilidades que ele precisa conhecer!”
Após me ouvir, dona Marly perguntou: “Pastor, o senhor não poderia vir à nossa casa?” Assustei-me mais essa vez. Respondi: “Claro que sim! Irei com prazer.” Ela acrescentou: “Eu gostaria que o senhor viesse fazer uma oração, para desanuviar as coisas aqui. O João não sai de casa e eu acabo ficando presa.”
Marcamos a visita para a quarta-feira seguinte, dois dias depois, 3 de junho de 1998. Foram dois dias de oração e preparação. Eu li vários poemas dele. E ousei escrever-lhe um.
Eu queria tentar ajudá-lo a se elevar de sua triste condição.
Na quarta-feira, deixei os meus filhos no ensaio do coro infantil. Preferi ir caminhando até o edifício onde morava o poeta. Não era muito longe. Apresentei-me na portaria, subi pelo elevador, toquei a campainha do apartamento e quem me abriu a porta foi o próprio João Cabral. Deu-me as boas-vindas e, franzino e andando lentamente, me encaminhou para o sofá.
Sentei-me em um sofá individual e ele sentou-se próximo a mim, no canto do sofá maior que estava à minha direita, em 90 graus. Apresentei-me e lhe contei tudo que acontecera, desde a minha leitura do artigo sobre ele. Eu lhe disse: “O que li, cheira a fim; mas eu vim falar de começo – recomeço, novos começos.” Citei as palavras do apóstolo Paulo: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).
Antes de prosseguir, eu disse a ele que não estava encontrando, nas livrarias, a sua obra poética completa. Nesse momento, ele pediu licença e saiu da sala. Talvez precisasse tomar algum remédio ou ir ao banheiro, pensei. Logo ele reapareceu com dois livros. Sentou-se e escreveu alguma coisa, com dificuldade, na primeira folha de cada um. Eram os dois volumes de sua obra poética completa, Serial e antes e A educação pela pedra e depois, com que ele me presenteou. A dedicatória no primeiro volume diz: “Ao pastor Glauner, homenagem de João Cabral de Melo Neto.” Fiquei muito grato e comovido.
Então eu lhe contei que guardava na memória, por alto, desde a adolescência, um poema dele: “O futebol brasileiro evocado da Europa”, sobre a bola, o “utensílio semivivo, / de reações próprias como bicho”, que é necessário “usar com malícia e atenção / dando aos pés astúcias de mão”. O poema fora lido, na televisão, em 1976, em homenagem ao jogador Geraldo, do Flamengo, que morrera em uma cirurgia para extração das amígdalas.
Bem, era a hora de apresentar a mensagem bíblica, que eu fiz de modo lógico-narrativo, da criação (Gênesis) à recriação final (Apocalipse), passo a passo, razão por razão, sentido por sentido, mas em um voo alto; por alto.
João Cabral permaneceu em silêncio o tempo todo, mas demonstrava muita atenção a tudo que ouvia.
Quando acabei de falar, bastaram alguns segundos para ele dizer: “Eu estou impressionado.” Se um homem de poucas palavras como ele e, ainda por cima, um poeta que usa as palavras com precisão, diz que está impressionado, essa palavra significaria que a mensagem realmente o marcou; deixou uma impressão nele. Eu também fiquei impressionado com as palavras dele.
Em seguida, li um poema que escrevi para ele. Era um chamado à fé. Intitulei-o “João e Severino”. João era o próprio poeta. Severino era o homem que já mencionei. Do ponto de vista dos recursos, seu Severino vivia uma vida severina; mas não em se tratando de confiança e esperança espirituais. Eu não poderia ter lembrado de outro nome/pessoa melhor para estar no poema, que se segue:
JOÃO E SEVERINO
Para João Cabral de Melo Neto
e a quem mais de alma severina
João
Severino não é meu nome,
mas minh’alma é severina.
Minh’alma tem perna fina,
Minh’alma passa fome.
Severino
Severino, sim, sou eu,
Severino sem medo e sem fim.
E isto é por que canto assim:
Minha morte, Cristo morreu.
João
Dentro de mim agonizo,
Mas não creio em salvadores.
Aqui fico escravo das dores,
Aí estás perdendo o juízo.
Severino
Não estou fora de mim,
Nem me falta o juízo.
O que disse, enfatizo:
Cristo resgatou-me, sim!
João
Por dentro sou agreste:
Seco, pedregoso, esvaído,
De medo da morte doído
E certo da vida peste.
Severino
Teu coração sem abrigo,
Teu sorriso coberto de pó.
Oh, tristeza que faz dó!
Ah, João, vem comigo!
João
De poucas letras e pobre,
És presa fácil das falácias.
Em que creio, é nas farmácias,
Cujo manto a angústia cobre.
Severino
Não estudei, não senhor,
Mas da verdade sou sabido.
Os mistérios tenho aprendido
Com meu Mestre, o Criador.
Choro porque tua vaidade
Proíbe-te o remédio
Que pode curar teu tédio
E fazer-te felicidade.
Teu coração sem abrigo,
Teu sorriso coberto de pó,
Oh, tristeza que faz dó!
Ah, João, vem comigo!
Diremos, João e Severino:
Cristo morreu nossa morte
E, a despeito de qualquer sorte,
A eternidade é nosso destino.
João
Meu coração é um relicário
De tristezas sempre polidas.
Mas, vaidade e descrença vencidas,
Aceito ser meu contrário.
Severino, contigo irei,
Antes que seja tarde.
Nem presunçoso, nem covarde:
De fé em fé viverei.
Como nascendo de um ovo,
Surge-me a felicidade.
Achei, enfim, a Verdade:
Cristo, que tudo faz novo.
Severino, a esse Deus forte,
Peço depressa acolhida.
Morre hoje a morte em vida
E fica a vida que é sem morte.
Jesus Cristo
A morte que era tua já morri.
Teu inferno deveras anulei.
A teu lado sempre estarei,
Deleita-te comigo e sorri!
Tua importância é uma chave,
João Cabral de Melo Neto,
Que ao teu Cristo ressurreto,
Corações tantos destrave.
Duas senhoras
— Lá vai o João de alma severina!
— Não! É o João sem medo e sem fim.
— Como assim?
— Já te conto, menina.
João, tão afeito ao Nordeste,
Sedento e deixado a esmo,
Viajou ao interior de si mesmo
E achou-o como um agreste.
Mas crendo que a seca tem jeito
E é questão de vontade,
Rompeu com a própria vaidade
E abriu confiante seu peito.
Fez a sábia concessão:
Chamou para ser seu Senhor
Quem mais é conhecedor
Da seca de seu coração:
Jesus assumiu e deu jeito,
Abrindo fontes compulsivas,
Que rios de águas vivas,
Fazem correr em seu peito.
Que desta feliz história
Do poeta brasileiro,
Aprenda o mundo inteiro,
Que em Cristo está a glória.
Ao fim de minha leitura, João Cabral disse: “O senhor já escreveu poemas antes?” Respondi que sim, como amador. Então ele declarou: “Esse está muito bem estruturado.” Foi um grande momento para mim, embora não fosse isso que eu buscasse. Ele continuou: “Muito obrigado! Posso ficar com essa cópia?” Respondi: “Claro! Escrevi para o senhor.”
A visita durou cerca de uma hora e meia. Ao nos despedirmos, percebi que ele estava se sentindo bem.
Quando cheguei à minha casa, muito feliz, compartilhei tudo com a minha família. Falei sobre a exposição lógico-narrativa da mensagem bíblica para João Cabral. Um dos meus filhos, adolescente à época, comentou, para a minha surpresa e prazer: “Você testou esse modelo, pela primeira vez, no pior cenário possível, porque falou a um ateu; e foi bem-sucedido.” Cogito que o poeta tenha percebido, pela primeira vez, o sentido lógico da mensagem cristã, como um todo, pela percepção do sentido que fazem suas partes, apresentadas de forma lógico-narrativa.
Uns poucos dias depois, telefonei para a casa de João Cabral e, novamente, a dona Marly me atendeu. Ela me contou que ele havia gostado muito de nosso encontro. Ele lhe disse: “Eu me senti como no colégio, ouvindo o padre falar.” Mas ele gostou muito. Perguntei se ele gostaria que eu o visitasse novamente. Ela respondeu: “Ligue novamente. Eu vou colocar o telefone próximo à cama, para ele mesmo atender.” Assim foi feito. Ele atendeu, eu me identifiquei e ele disse prontamente: “Eu fiquei muito impressionado.” Falei que eu poderia visitá-lo novamente, se ele assim desejasse. Ele respondeu que gostaria, sim.
Na quarta-feira, fui novamente ao seu apartamento. Mais uma vez foi ele quem me recebeu à porta. Eu lhe disse que foi uma honra receber dele os livros, especialmente com dedicatórias. Expressei a minha felicidade por haver o nosso encontro anterior deixado impressões positivas nele. Ele estava com o semblante suave. Ele falou mais desta vez.
