A Bíblia não existia, como um documento fechado, até o século IV. Existiam apenas os documentos avulsos. E eram muitos. O evangelho de Lucas se inicia assim: “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (1:1–4).
Lucas tinha conhecimento de que “muitos” já tinham escrito evangelhos, talvez mais compactos. Eles não foram inseridos na Bíblia por razões naturais. Como testemunhos históricos que eram, pondo em ordem “a narração dos fatos”, não se cogitaria que fossem divinamente inspirados. “Esses evangelhos primitivos desapareceram rapidamente de vista, pois, evidentemente, eles não continham nada além do que estava incorporado nas narrativas mais completas e mais sistemáticas dos ‘quatro’” (Henry Donald Maurice Spence-Jones).
Lucas achou conveniente escrever uma narrativa a mais, para assegurar a Teófilo que eram corretas as informações que ele já tinha dos fatos. Ele, trabalhou com precisão cirúrgica em sua historiografia. O seu livro é declaradamente resultado de uma investigação histórica: “[…] havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio […]”
Havia dúvida sobre quais escritos deveriam ser lidos e considerados sagrados. Havia diversas cartas, evangelhos, atos etc. atribuídos a autores diversos, por exemplo. Houve vários livros que tiveram canonicidade reconhecida local e temporariamente.
O apóstolo Pedro indicou que tinha cópias das cartas de Paulo reunidas: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pedro 3:15s.). O Cânon estava se formando.
No Concílio Regional de Hipona, em 393 d.C., foi fechada uma lista de documentos que seriam considerados canônicos – “cânon”. Essa lista, vinda de um concílio regional, foi definitivamente adotada no Concílio Geral de Cartago, em 397 d.C. Agostinho participou desse concílio como Bispo de Hipona. A composição do Cânon foi confirmada pelo Concílio de Trento, em 1546, que emitiu o decreto Sobre as Escrituras Canônicas (De Canonicis Scripturis). A lista do Antigo Testamento:
Testamenti Veteris: Quinque Moysis, id est Genesis, Exodus, Leviticus, Numeri, Deuteronomium; Iosue, Iudicum, Ruth, quattuor Regum, duo Paralipomenon, Esdrae primus et secundus, qui dicitur Nehemias, Tobias, Iudith, Esther, Iob, Psalterium Davidicum centum quinquaginta psalmorum, Parabolae, Ecclesiastes, Canticum Canticorum, Sapientia, Ecclesiasticus, Isaias, Ieremias cum Baruch, Ezechiel, Daniel, duodecim prophetae minores, id est: Osea, Ioel, Amos, Abdias, Ionas, Michaeas, Nahum, Habacuc, Sophonias, Aggaeus, Zacharias, Malachias; duo Maccabaeorum, primus et secundus.
Antigo Testamento: Cinco de Moisés, isto é, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio; Josué, Juízes, Rute, quatro de Reis, dois de Crônicas, primeiro e segundo de Esdras, que é chamado Neemias, Tobias, Judite, Ester, Jó, o Saltério davídico de cento e cinquenta salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Isaías, Jeremias com Baruque, Ezequiel, Daniel, os doze profetas menores, isto é: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias; dois dos Macabeus, primeiro e segundo. (Tradução nossa.)
Testamenti Novi: Quattuor Evangelia, secundum Matthaeum, Marcum, Lucam, Ioannem; Actus Apostolorum a Luca Evangelista conscripti; quattuordecim epistulae Pauli Apostoli: ad Romanos, duae ad Corinthios, ad Galatas, ad Ephesios, ad Philippenses, ad Colossenses, duae ad Thessalonicenses, duae ad Timotheum, ad Titum, ad Philemonem, ad Hebraeos; Petri Apostoli duae; Ioannis Apostoli tres; Iacobi Apostoli una; Iudae Apostoli una et Apocalypsis Ioannis Apostoli.
Novo Testamento: Quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas, João; Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas o Evangelista; quatorze cartas do Apóstolo Paulo: aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, a Tito, a Filemon, aos Hebreus; duas do Apóstolo Pedro; três do Apóstolo João; uma do Apóstolo Tiago; uma do Apóstolo Judas e Apocalipse do Apóstolo João. (Tradução nossa.)
O Reformador alemão Martin Luther chamou para si o tema dos livros que deveriam ser considerados canônicos. Entre outras críticas, ele chamou a carta de Tiago de “carta de palha” (Strohbrief), porque ela parecia rejeitar a doutrina da justificação pela fé de Paulo. Ele chegou a dizer: “Algum dia usarei Tiago para acender meu fogão.”
Na edição de 1534 de sua Bíblia, Luther incluiu entre o Antigo e o Novo Testamento os livros “deuterocanônicos” (“que pertencem a, ou constituem, um segundo cânon”) da Bíblia católica, sob o título “Apócrifos: Esses Livros Não São Considerados Iguais às Escrituras, mas São Úteis e Bons para Ler”. “Apócrifo” (apokruphos, ἀπόκρυφος) significa “oculto, obscuro”. São estes os livros apócrifos:
- Tobias
- Judite
- Sabedoria de Salomão
- Eclesiástico
- I e II Macabeus
- Baruque
Durante a Guerra Civil Inglesa, a Confissão de Westminster de 1647 excluiu os livros apócrifos do cânon. A justificativa da Confissão foi esta: “Os livros comumente chamados de Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon das Escrituras e, portanto, não têm autoridade na igreja de Deus, nem devem ser aprovados ou utilizados de outra forma que não outros escritos humanos.”
Agora, uma dúvida sobre o Novo Testamento. O apóstolo Paulo disse em sua carta aos Colossenses: “E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses; e a que veio de Laodiceia, lede-a vós também (4:16). Que carta é essa aos laodicenses, que não aparece no Novo Testamento? Poderia ter se perdido um documento canônico, apostólico, “inspirado”? Vários estudiosos consideram com naturalidade essa hipótese. Bruce M. Metzger escreveu em Cânon do Novo Testamento: Sua Origem, Desenvolvimento e Significado: “Indubitavelmente, então, muitas cartas privadas escritas por autores representados no Novo Testamento se perderam.” Curiosamente, existe uma Carta aos Laodicenses, mas ela não é considerada autêntica.
Uma outra possível explicação é que a carta ausente aos laodicenses seja a carta aos Efésios que temos em nosso Testamento. G. G. Findlay argumentou que nada pode se afirmado com certeza, mas “várias considerações apontam para a probabilidade de que esta carta ausente não é outra que nossa (assim-chamada) Epístola aos Efésios”.
Algumas razões para se cogitar que a carta aos Efésios não teria sido escrita para essa igreja:
a) Ambas as cartas foram enviadas ao mesmo tempo, pelo mesmo mensageiro, Tíquico (Efésios 6:21; Colossenses 4:7).
b) A relação entre as duas cartas é muito íntima, como se fossem cartas gêmeas. Cada uma serve como comentário para a outra.
c) A expressão “em Éfeso” (ἐν Ἐφέσῳ) em Efésios 1:1 são de autenticidade duvidosa. E há muita coisa na carta que favorece a hipótese de que ela não foi escrita aos efésios particularmente, sendo antes uma carta circular para um número de igrejas na Ásia Menor.
d) Paulo trabalhou em Éfeso, mas a carta não contém as costumeiras saudações pessoais que há no fim de outras cartas suas. Vejamos: “Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade. Amém!” (Ef. 6:23s.).
Metzger escreveu que os autores das cartas apostólicas “não revelam nenhuma consciência de que suas palavras viriam a ser consideradas padrão permanente de doutrina e vida na igreja cristã. Eles escrevem para um propósito imediato […].” Não havia entre eles a ideia de que seus escritos viriam a fazer parte de uma coleção fechada.
Mas era natural que os livros instrutivos da fé cristã que circulavam entre as igrejas viessem a ser reunidos e formassem o cânon cristão. “Cânon” (kanon, κανών) significa barra, vara ou régua reta que serve de padrão e para medida. Assim, as Escrituras são o nosso padrão de doutrina e prática.
Mezger argumentou que, porque tendo os escritores apostólicos vivido tão próximo do tempo em que Jesus viveu, seus escritos foram cada vez mais separados de outros escritos, o que ajudou a consolidá-los como “um corpo distinto de literatura”.