Morrer é natural? As pessoas geralmente respondem que sim. E por que elas dizem que morrer é natural? Porque todos morrem.
Então perguntamos: nós encaramos a morte com naturalidade? Nós a vemos com familiaridade? Aqui, as pessoas prontamente dizem que não — de jeito nenhum. Nós encaramos a morte com pavor. Temos aversão a ela — uma profunda aversão natural.
Devemos, então, perguntar: por que não encaramos a morte com naturalidade, se ela é natural? Como é possível que algo inerente à nossa natureza nos encha de pavor? Se a morte é natural, não deveria ela ser vista com o mesmo sentimento de encantamento e prazer que o nascimento, o crescimento e o amor? A verdade é que se a morte fosse realmente natural, nós a encararíamos com simpatia e até a celebraríamos.
Em suma, por que a morte nos causa desconforto existencial, se ela é biologicamente natural?
O poeta português Fernando Pessoa perguntou: “Quem me dispôs para o que não pudesse?” O que nos faz ansiar pelo impossível? Temos desejos equivocados? De onde vêm esses desejos?
O rei Salomão disse que Deus colocou a eternidade no coração de suas criaturas (Eclesiastes 3:11). Fomos criados com desejo de eternidade justamente porque Deus nos criou para a eternidade, e não para morrer.
Mas por que morremos, então? Porque fomos criados para a imortalidade, mas ela não se concretizou; as criaturas não creram em Deus, mas o desobedeceram. Isso é chamado de pecado. O apóstolo Paulo escreveu: “Pois o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23).
Assim, nosso problema existencial é que, por um lado, ansiamos pela imortalidade, enquanto, por outro, estamos sujeitos à morte.
Deus nos criou para um relacionamento eterno de amor com Ele. Ele proveria tudo para a felicidade de suas criaturas, enquanto elas o amariam e glorificariam com gratidão e obediência. Isso se expressa na fórmula bíblica “Eu serei o Deus deles e eles serão o Meu povo”, que aparece frequentemente em toda a Bíblia. Um exemplo é: “Andarei entre vocês e serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo” (Levítico 26:12).
Mas para que Deus fosse amado autenticamente, não por robôs que o amassem automaticamente, as criaturas precisariam ter liberdade moral; pois só há virtude onde há liberdade. Então Deus criou seres bons, mas que precisariam fazer sua própria escolha entre permanecer no bem ou migrar para o mal.
Enquanto o casal obedecesse a Deus, abstendo-se de comer o fruto proibido, teria tempo para se aproximar da árvore da vida, comendo de cujo fruto se confirmaria no bem em que foi criado e se tornaria imortal. No entanto, tragicamente, tentado pelo diabo, o casal escolheu considerar a verdade de Deus mentira e pecou, introduzindo assim o sofrimento e a morte na existência humana. Dessa forma, por meio da desobediência ao Criador, os seres humanos — originalmente criados com uma vocação para a imortalidade — se tornaram mortais. Criados para a eternidade, acabamos na morte. A morte não pertence à nossa natureza original; ela foi um acidente no estágio inicial da existência humana.
As pessoas perguntam por que Deus permite que toda sorte de males danifique ou destrua vidas. Ora, nós estamos falando de um mundo amaldiçoado pelo pecado. Como escreveu o apóstolo Paulo, “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Romanos 8:22). O pecado danificou todas as esferas do universo. Todos os sofrimentos do mundo são fagulhas da bomba do pecado que explodiu no Éden e que alcançarão todas as criaturas de todos os séculos. Já não sabemos que o salário do pecado é a morte?
Mas Deus, traído pelas criaturas originais, “prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). Ele “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). O que é verdadeiramente natural e legítimo em nós, que veio de nossa origem, não é a morte, mas o anseio humano pela eternidade. E é a isso que está em nós que o Evangelho de Cristo apela. Deus nos oferece a realização de nosso maior desejo. A e-ter-ni-da-de! E quanto isso custa? Crer em Jesus. É muito?
A morte está em nosso caminho. Contudo, no caminho dos que creem em Jesus está também a ressurreição prometida para o dia de sua segunda vinda. Viveremos uma eternidade feliz na companhia de Deus e de Jesus. “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). A morte é tão inatural que o apóstolo Paulo escreveu: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15:26). Assim está escrito e assim será. “O que vencer não receberá o dano da segunda morte” (Apocalipse 2:11), mas, uma vez ressuscitado, permanecerá feliz para sempre. Quem crer, verá e viverá. Já quem não crer, somente verá… de longe; porque o seu destino será a segunda morte. Desse modo, a morte que conhecemos não é tudo. Haverá a ressurreição dos que creem em Jesus para a eternidade e, dos que não creem, para a morte definitiva.
“Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Romanos 10:9–10). A sua salvação eterna está a um passo de distância: o passo da fé em Jesus como Senhor e Salvador. Seja eternamente feliz!
Vamos resumir tudo com cinco proposições do autor britânico Alister E. McGrath:
(a) “Nós fomos criados para a vida eterna – e isso foi frustrado pelo pecado, que nos desvia de Deus e cria um senso de vazio ao fazer isso.”
(b) A angústia existencial “deve sua origem ao profundamente enraizado e pervasivo medo humano da morte”.
(c) A solução é que devemos correlacionar o evangelho com esse senso de profundo incômodo, enchendo-o com a presença do Deus vivo.
(d) “A ansiedade em relação à morte revela-se a porta de entrada para a vida eterna.”
(e) Assim, o senso de medo que nos assalta pode ser considerado como “Deus batendo gentilmente na porta de nossa vida”.
Abra a porta pela fé e viva eternamente!
Glauner da Silva Pereira
Você vem comigo? https://www.instagram.com/glaunerpereira/